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Quando eu morrer

Posted By Tiko Lee On 17/04/2018 @ 09:00 In El sueño de | No Comments

O texto  a seguir retrata, sem retoques, o sentimento de um homem que nunca se curvou diante das adversidades. Um poeta que, mergulhado em si mesmo, há muitos  anos fez uma crônica utópica sobre o dia da sua morte. Nas entrelinhas, sua narrativa propõe uma reflexão sobre  a hipocrisia e a demagogia humana.

 

 Quando eu morrer,…( Altino Rossi de Almeida)

 

Quando eu morrer, só quero ver

quem vem desfilar na frente do meu caixão,…

Parece que os vejo,…e como!!!

Muitos são cínicos, meus inimigos que, para  descarregarem

suas sujas consciências,

abraçam  meus familiares, dizendo, mentindo, é claro,

que sentem  imensamente  a minha partida, quando,

no íntimo  de seus corações, dizem que já fui, muito tarde,

desta para, de preferência, para pior.

Outros, que nunca os vi, nem mais gordos, nem mais magros,

como queiram, que somente vieram para ver  se serei enterrado

com a boca aberta ou fechada, ou se fiquei feio  com o monte

de algodão dentro do meu nada pequeno nariz!!!

Aposto que estará assim de gente querendo cantar hinos

religiosos ou rezas, só querem aparecer.

Provavelmente alguns pastores ou alguns  candidatos das

próximas  eleições.

Que, com certeza,  ao terminarem os blablablás, ficarão crentes

que estão abafando, Que tontos!!!

hipocresia

Alguns , como eu gostaria que viessem  visitar-me  em vida,…

Mas depois que eu morrer, de que me adianta???

Mas a coisa que eu mais detesto é que não vai faltar

quem diga que eu era tão bonzinho!!!

Por que só me atiraram pedras???

Ah!!!,…tem um alvoroço no portão de minha casa.

Vamos ver,…quem será???

Ora!!! Só podia ser eles mesmos!!! O prefeito com seus puxa-sacos!!!

Já tem até algum vereador querendo  pôr meu nome

numa rua, ou coisa que valha!!!

Por que não me homenagearam em vida???

Quando eu  morrer, não quero saber de caixão caro,

qualquer um serve, desde que não arrebente embaixo.

Deve ser um horror o defunto desabar no meio da rua!!!

Na minha lápide, basta o meu  nome.

Se desejarem pôr  datas de  nascimento e morte, tudo bem.

Mais nada. Nada de velas, nada de fitas ou  rabecões de flor.

Isso fica muito caro. Nada de discursos!!!

Mesmo porque, depois que os coveiros  me porem bem lá

no fundo do buraco, onde os vermes  estarão de boquinhas

bem abertas esperando-me, ansiosamente, diga-se de passagem,

o povo jogará terra sobre mim, com as duas mãos cheias,

para enterrar-me mais depressa, e todos voltarão alegres satisfeitos,

batendo o maior papo, certos de que cumpriram a sagrada  missão de enterrarem

mais um político,…(Altino Rossi de Almeida *09/01/1944 – +05/05/2017.)


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